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	<title>Cinema Com Quem (não) Entende</title>
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	<description>diário de uma estudante de cinema</description>
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		<title>Cinema Com Quem (não) Entende</title>
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		<title>cultura de massa dissolvida pelo compartilhamento digital</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jun 2011 19:55:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cinemacomquementende</dc:creator>
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		<description><![CDATA[As produções culturais e intelectuais têm sofrido rápidas mudanças, provocadas pela rápida dispersão de informações que a cultura digital trouxe nos últimos anos. A relação entre cultura e dinheiro vem se deteriorando e desmistificando o poder do ser culto. Essa mudança é resultado de uma crise cultural a partir das primeiras descobertas tecnológicas, antes transvestidas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cinemacomquementende.wordpress.com&amp;blog=8938355&amp;post=148&amp;subd=cinemacomquementende&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">As produções culturais e intelectuais têm sofrido rápidas mudanças, provocadas pela rápida dispersão de informações que a cultura digital trouxe nos últimos anos. A relação entre cultura e dinheiro vem se deteriorando e desmistificando o poder do ser culto. Essa mudança é resultado de uma crise cultural a partir das primeiras descobertas tecnológicas, antes transvestidas em entretenimento no mercado das emoções baratas e que, posteriormente, se tornaram também modelos de estagnação mental com o advento da telecomunicação.</p>
<p style="text-align:justify;">Na esfera da pós-revolução industrial, observamos o poder do status guiado pelo pensamento aristocrático, que fez da política populista uma prática de comércio e lucro. Desta forma, os parques de diversões e o cinema – conseqüências da produção tecnológica – tornaram-se distração para as classes mais baixas. Nicolau Sevcenko em “A Corrida para o Século XXI” fala que, quando essas fórmulas de entretenimento surgiram, eram destinadas especificamente às classes trabalhadoras e eram consideradas formas estúpidas de diversão coletiva. Esse tipo de indústria cultural só seria ultrapassado com o advento da televisão na primeira metade do século XX.</p>
<p style="text-align:justify;">A partir de modificações no cenário político, surgem novos modelos culturais. Estamos diante da cultura de massa controlada por governos nas redes de telecomunicação. Nos Estados Unidos, os acontecimentos internos durante a caça ao comunismo, rodeados de ditadura e censura, fizeram da mídia, portanto, instrumento de valorização do governo vigente. No filme “Boa Noite e Boa Sorte” é relatado parte deste período da política cultural americana: jornalistas censurados por imposições do senador Joseph McCarthy, responsável por um intenso programa anticomunista e de “caça às bruxas”. A obra traz como ator protagonista David Strathairn, atuando como Ed Murrows, jornalista que se opôs à repressão, apresentando o programa de TV e criticando as opiniões do senador.</p>
<p style="text-align:justify;">Não apenas nos Estados Unidos, mas também na China de Mao Tsé, o regime político teve relações diretas na produção cultural. Isso mostra que, independente do regime, a cultura de massa é caracterizada por uma democracia popular, segundo Umberto Eco: “Toda vez que um grupo de poder, uma associação livre, um organismo político ou econômico se vê na contingência de comunicar-se com a totalidade de cidadãos de um país, prescindindo dos vários níveis intelectuais, tem que recorrer aos modos de comunicação de massa e sofre regras inevitáveis da adequação à média”.</p>
<p style="text-align:justify;">Regimes totalitários são populistas. No cinema brasileiro, com exceção de produções pró-ditadura, tivemos obras significativas para linguagem cinematográfica nacional. Antes do AI-5, ainda restava espaço para opiniões opostas, mas depois os artistas recorreram à metáfora. Filmes como “Macunaíma” (1969, Joaquim Pedro de Andrade) e “Cabezas Cortadas” (1970, Glauber Rocha) investiram na criatividade e se manifestaram em nome do silêncio do povo. A ditadura, durante 22 anos, censurou e repreendeu aqueles que tentavam contrapô-la, no entanto serviu como experiência técnica e amadurecimento intelectual para o cinema e as expressões artísticas brasileiras.</p>
<p style="text-align:justify;">Após a era dos extremos, a cultura de massa se tornou basicamente comercial e estética. O capitalismo, motivado com o neoliberalismo, não abre espaço para questionamentos do sujeito, ele caminha para a desconstrução do coletivo. Por outro lado, ainda que tenha aberto espaço para o individualismo, a cultura digital contribuiu para diminuir as barreiras de conhecimento entre as classes sociais. Percebemos todos participando de um mesmo sistema, onde o gosto popular é também consumido pelas camadas mais altas. O fato de esta cultura ser desvalorizada por outra, dita intelectual, já se torna mito. Todos fazem parte do sistema, do popular, da televisão aberta, dos padrões de beleza, etc. A desconstrução da “idéia-inferior” (ou seja, o gosto popular) começa aqui, ainda que exista – para alguns – a nostalgia do status, quando os valores de cultura eram dominados e não estavam à disposição de todos.</p>
<p style="text-align:justify;">Todo o processo que transcorreu nos “níveis” de cultura é desencadeado pelas transformações históricas e sociais da humanidade, desde a arte na pré-história, o surgimento de folhetins, o mito da caverna de Platão, a mídia, a publicidade e as revoluções, e agora a era digital. Esta era, fortemente armada com uma política de todos-para-todos, compartilhando informações, cultura e arte, – tenta, assim, ultrapassar barreiras políticas e financeiras ainda existentes, como o Ecad e a proibição recente do Twitter no Irã. Neste processo, agora, o termo cultura de massa quase não faz mais sentido para o mercado livre da comunicação, cultura e arte.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cinemacomquementende.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cinemacomquementende.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cinemacomquementende.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cinemacomquementende.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cinemacomquementende.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cinemacomquementende.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cinemacomquementende.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cinemacomquementende.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cinemacomquementende.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cinemacomquementende.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cinemacomquementende.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cinemacomquementende.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cinemacomquementende.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cinemacomquementende.wordpress.com/148/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cinemacomquementende.wordpress.com&amp;blog=8938355&amp;post=148&amp;subd=cinemacomquementende&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O DIA EM QUE URANO ENTROU EM ESCORPIÃO</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Mar 2011 18:36:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cinemacomquementende</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trecho]]></category>
		<category><![CDATA[caio fernando abreu]]></category>
		<category><![CDATA[morangos mofados]]></category>

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		<description><![CDATA[(Velha história colorida) Para Zé e Lygia Sávio Teixeira e para Lucrécia (Lucas ou César Esposito) &#160; Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele sem dizer [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cinemacomquementende.wordpress.com&amp;blog=8938355&amp;post=145&amp;subd=cinemacomquementende&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><em>(Velha história colorida) </em></strong></p>
<p><em>Para Zé e Lygia Sávio Teixeira e para Lucrécia (Lucas ou César Esposito)</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião.  Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele sem dizer nada. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela nem parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer outra coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião,Júpiter saindo de Aquário ou a Lua fora de curso.</p>
<p>Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estréias em sessões da meia- noite e gente se encontrando e motos correndo e tão difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma lasca de carne nas sobras frias da galinha de meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali ouvindo um velho Pink Floyd baixinho para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar com aquele <em>antro </em>(eles não gostavam da expressão, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros de segunda mão e almofadas indianas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa proibida) &#8211; renunciando pois ao sábado, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume do som e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, já que se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha parado no meio da sala. E não disseram nada.</p>
<p>Aquele que tinha saído da janela fez assim como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele trechinho com órgão e violinos, que parecia uma <em>cavalgada medieval. </em>O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava tentando mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto alguma vez na vida alguma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e todos aqueles violinos ao fundo ficava imaginando um guerreiro de armadura montado num cavalo branco, correndo contra o vento, assim tipo Távola Redonda, a silhueta de um castelo no alto da colina ao fundo &#8211; e o guerreiro era <em>medieval, </em>acentuou, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros, um crepúsculo, talvez um quarto crescente mourisco, quem sabe um lago até, quando a moça com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que erguera para a testa no momento em que o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:</p>
<p>Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. <em>Necessariamente </em>porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. <em>Louco </em>porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura &#8211; loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.</p>
<p>Ernest Becker, A <em>negação da morte</em></p>
<p>Quando ela parou de ler e olhou radiante para os outros, o que tinha saído da janela voltara para a janela, o rapaz de camisa vermelha continuava parado e meio ofegante no meio da sala enquanto o outro olhava para o osso descarnado da perna de galinha. Disse então que não gostava muito de perna, preferia pescoço, e isso era engraçado porque passara por três fases distintas: na infância, só gostava de perna, na casa dele aconteciam brigas medonhas porque eram quatro irmãos e todos gostavam de perna, menos a Valéria, que tinha nojo de galinha; depois, na adolescência, preferia o peito, passara uns cinco ou seis anos comendo só peito e agora adorava pescoço. Os outros pareceram um tanto escandalizados, e ele explicou que o pescoço tinha delícias ocultas, assim mesmo, bem devagar, <em>de-lí-ci-as-o-cul-tas, </em>e nesse momento o disco acabou e as palavras ficaram ressoando meio libidinosas no ar enquanto ele olhava para o osso seco.</p>
<p>O rapaz de camisa vermelha aproveitou o silêncio para gritar bem alto que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros pareceram perturbados, menos com a informação e mais com o barulho, e pediram psiu, para ele falar baixo, se não lembrava do que tinha acontecido a última vez. Ele disse que a última vez não interessava, que <em>agora </em>Urano estava entrando em Escorpião, <em>ho-je, </em>falou lentamente, olhos brilhando. Ele estava lá há uns cinco anos, acrescentou, e os outros perguntaram ao mesmo tempo <em>ele-quem-estava-onde? Urano </em>o rapaz de camisa vermelha explicou, na minha Casa oito, a da Morte, vocês não sabem que eu podia morrer? e pareceria aliviado, não fosse toda aquela agitação. Os outros entreolharam-se e a moça com o livro nas mãos começou a contar uma história muito comprida e meio confusa sobre um garoto esquizofrênico que tinha começado <em>bem </em>assim, ela disse, a curtir coisas como alquimia, astrologia, quiromancia, numerologia, que tinha lido não sabia onde (ela lia muito, e quando contava uma história nunca sabia ao certo onde a teria lido, às vezes não sabia sequer se a tinha vivido e não lido). Acabou no Pinel, contou, é assim que começam muitos processos esquizóides. Olhou bem para ele ao dizer <em>processos esquizóides, </em>os outros dois pareceram muito impressionados e tudo, não se sabia bem se porque respeitavam a moça e a consideravam superculta ou apenas porque queriam atemorizar o rapaz de camisa vermelha. De qualquer forma, ficou um silêncio cheio de becos até que um dos outros se moveu da janela para virar o disco. E quando as bolhas de som começaram a estourar no meio da sala todos pareceram mais aliviados, quase contentes outra vez.</p>
<p>Foi então que o rapaz de camisa vermelha tirou da bolsa um livro que parecia encadernado por ele mesmo e perguntou se eles entendiam francês. Um dos rapazes jogou o osso de galinha no cinzeiro, como se quisesse dizer violentamente que não, olhando para o que estava na janela, e que já não estava mais na janela, mas sobre o tapete, remexendo nos discos. Parou de repente e olhou para a moça, que hesitou um pouco antes de dizer que entendia mais ou menos, e todos ficaram meio decepcionados. O rapaz de camisa vermelha falou baixinho que não tinha importância, e começou a ler um negócio assim:</p>
<p>Laposition de cet astre en secteur situe le lieu ou l’être dégage au maximum son indiuidualitéaans une voie de supersonnalisation, à lafaveur d’un développement d’énergie ou d’une croissance exagerée qui est moins une abondance de force de vie qu’une tension particulière d’enérgie. Ici, l’être tendà affirmer une volontélucide d’independence quipeutie conduire à une expression supérieure et originaledesapersonalité. Dans la dissonance, son exigence conduit à l’insensibilité, à la dureté, à l’excesszf à l’extremisme, au jusqu’au’boutisme, à l’aventure, aux bouleversements.</p>
<p>André Barbault, <em>Astrologie</em></p>
<p>Parou de ler e olhou para os outros três devagar, um por um, mas só a moça sorriu, dizendo que não sabia o que era <em>bouleversements. </em>Um dos rapazes lembrou que <em>boulevard </em>era rua, e que portanto devia ser qualquer coisa que tinha a ver com rua, com andar muito na rua. Ficaram dando palpites, um deles começou a procurar um dicionário, o rapaz de blusa vermelha olhava de um para outro sem dizer nada. Depois que todos os livros foram remexidos e o dicionário não apareceu e o outro lado do disco também terminou, ele repetiu separando bem as sílabas e com uma pronúncia que os outros, sem dizer nada, acharam ótima:</p>
<p>L’être tendà affirmer une volonté lucide d’independence qui peut le conduire à une expression supérieure et originale de sapersonalité.</p>
<p>Então perguntou se os outros entendiam, eles disseram que sim, era parecidinho com português, <em>lucide, </em>por exemplo, e <em>originale, </em>era superfácil. Mas não pareciam entender. Aí os olhos dele ficaram muito brilhantes outra vez, parecia que ia começar a chorar quando de repente, sem que ninguém esperasse, deu um salto em direção à janela gritando que ia se jogar, que ninguém o compreendia, que nada valia mais a pena, que estava de saco cheio e não apostava um puto na merda de futuro.</p>
<p>O rapaz de camisa vermelha chegou a colocar uma das pernas sobre o peitoril, abrindo os braços, mas os outros dois o agarraram a tempo e o levaram para o quarto, perguntando muito suavemente o que era aquilo, repetindo que ele estava demais nervoso, e que estava tudo bem, tudo bem. A moça de óculos ficou segurando a mão dele e passando os dedos no seu cabelo enquanto ele chorava, um dos rapazes disse que ia até a cozinha fazer um chá de artemísia ou camomila, a moça falou que cidró é que era bom pra essas coisas, o outro falou que ia colocar aquele disco de música indiana que ele gostava tanto, embora todo mundo achasse chatíssimo, só que precisou botar bem alto para que pudessem ouvir do quarto. O chá veio logo, quente e bom, apareceu um baseado que eles ficaram fumando juntos, um de cada vez, e tudo foi ficando muito harmonioso e calmo até que alguém começou a bater na porta tão forte que pareciam pontapés, não batidas.</p>
<p>Era o síndico, pedindo aos berros para baixar o som e falando aquelas coisas desagradáveis de sempre. A moça de óculos disse que sentia muito, mas infelizmente naquela noite não podia baixar o volume do som, não era uma noite como as outras, era muito especial, sentia muito. Tirou os óculos e perguntou se o síndico não sabia que Urano estava entrando em Escorpião.</p>
<p>Lá no quarto, o rapaz de blusa vermelha ouviu e deu um sorriso largo antes de adormecer com os outros segurando nas suas mãos. Então sonhou que deslizava suavemente, como se usasse patins, sobre uma superfície dourada e luminosa. Não sabia ao certo se um dos anéis de Saturno ou uma das luas de Júpiter. Talvez Titã.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Caio Fernando Abre. Morangos Mofados.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cinemacomquementende.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cinemacomquementende.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cinemacomquementende.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cinemacomquementende.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cinemacomquementende.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cinemacomquementende.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cinemacomquementende.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cinemacomquementende.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cinemacomquementende.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cinemacomquementende.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cinemacomquementende.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cinemacomquementende.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cinemacomquementende.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cinemacomquementende.wordpress.com/145/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cinemacomquementende.wordpress.com&amp;blog=8938355&amp;post=145&amp;subd=cinemacomquementende&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<pubDate>Thu, 02 Dec 2010 03:33:39 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[“Tornar-se imagem, para toda forma, é fazer experiência desse exílio indolor em relação ao próprio lugar, em um espaço suplementar que não é nem o epaço do objetivo nem o espaço do sujeito, mas que deriva do primeiro e alimenta e torna possível a vida do segundo” COCCIA, Emanuele. A vida sensível. Desterro: Cultura e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cinemacomquementende.wordpress.com&amp;blog=8938355&amp;post=138&amp;subd=cinemacomquementende&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">“Tornar-se imagem, para toda forma, é fazer experiência desse exílio indolor em relação ao próprio lugar, em um espaço suplementar que não é nem o epaço do objetivo nem o espaço do sujeito, mas que deriva do primeiro e alimenta e torna possível a vida do segundo”</p>
<p style="text-align:justify;">COCCIA, Emanuele. A vida sensível. Desterro: Cultura e Barbárie (coleção PARRHESIA), 2010.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cinemacomquementende.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cinemacomquementende.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cinemacomquementende.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cinemacomquementende.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cinemacomquementende.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cinemacomquementende.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cinemacomquementende.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cinemacomquementende.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cinemacomquementende.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cinemacomquementende.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cinemacomquementende.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cinemacomquementende.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cinemacomquementende.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cinemacomquementende.wordpress.com/138/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cinemacomquementende.wordpress.com&amp;blog=8938355&amp;post=138&amp;subd=cinemacomquementende&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>19 anos</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Jul 2010 03:01:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cinemacomquementende</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<title>CINEMA MODERNO BRASILEIRO – ISMAIL XAVIER</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Jul 2010 17:55:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cinemacomquementende</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica]]></category>

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		<description><![CDATA[Fichamento. Introdução – O autor, Ismail Xavier, relaciona dois textos característicos de dois movimentos importantes no cenário brasileiro e mundial. O primeiro, Revisão crítica do cinema brasileiro &#8211; 1963, de Glauber Rocha (o “inventor de tradições”) e o segundo, Cinema: trajetória no subdesenvolvimento – 1973, de Paulo Emilio Salles. Dez anos separam os dois textos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cinemacomquementende.wordpress.com&amp;blog=8938355&amp;post=128&amp;subd=cinemacomquementende&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fichamento.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong><br />
Introdução</strong> – O autor, Ismail Xavier, relaciona dois textos característicos de dois movimentos importantes no cenário brasileiro e mundial. O primeiro, Revisão crítica do cinema brasileiro &#8211; 1963, de Glauber Rocha (o “inventor de tradições”) e o segundo, Cinema: trajetória no subdesenvolvimento – 1973, de Paulo Emilio Salles.</p>
<p>Dez anos separam os dois textos e ele relata suas diferenças e semelhanças. “No Glauber de 63, a tônica era a vontade de ruptura, a par do balanço histórico; em Paulo Emilio, (&#8230;) não se trata mais de propor o grande salto e sim de afiançar a continuidade de uma tradição”. Ou seja, Glauber queria a Revolução, Emilio via uma ameaça do fim de um ciclo.</p>
<p>As previsões para o fim do cinema moderno estavam enganas e a década de 70 foi o período de maior produção cinematográfica brasileira. Políticas de incentivo a determinadas obras, como filmes históricos e de artistas falecidos, foram financiados e não-censurados pelo regime militar. O cinema novo também é exemplo de comunicação com o mercado, de maneiras diferentes, assim como a chanchada nos anos 40/50, apesar do atraso econômico. A ruptura real deste ciclo, comenta Xavier, dar-se-á no final dos anos 80.</p>
<p><strong>Coordenadas de uma estética</strong> – O início dos anos de 1950 e 1970, entre todas as polêmicas, produziu uma convergência entre a “política dos autores”, os filmes de baixo orçamento e a renovação da linguagem. Isto é mais uma semelhança entre dois momentos distintos e até mesmo contrários, porém em sintonia com a originalidade, segundo Ismail. E ele faz, a partir disso, uma breve passagem na história do cinema mundial, citando nomes como Gadard, relacionando maio de 68 com o cinema conceitual e sua desconstrução no Brasil. Também fala da clássica “câmera na mão” como traço dos latinos americanos e, algumas vezes, dos europeus. Cita o experimentalismo no Cinema Marginal – aquele feito na “Boca do Lixo” – além do realismo de Hirzman em contraste com a descontinuidade de Glauber.</p>
<p><strong>O cinema moderno e a questão nacional</strong> – Cinema, literatura e a música. Fome, religião e violência. A questão da Identidade, consciência do oprimido, etc. Tudo isso engloba o “pré-64”. Sabido isso, o movimento passa, depois do golpe militar, por um sentimento de urgência e necessidade da Revolução(exemplificado em Terra em Transe e Macunaíma) e também por uma certa ambigüidade nas críticas (A Falecida, Viramundo, entre outros). Ambigüidades que se confundem com contradições no meio da polarização política e ideológica. Desta forma, o Cinema Novo e, principalmente, o Marginal tendem a um ar poético, complexo e nada didático devido às subjetividades do “cinema de autor”.</p>
<p>“(&#8230;) quando se passa de uma forma mais amena de entender a questão do atraso econômico para uma forma mais radical”.</p>
<p><strong>Cinema moderno brasileiro: apontamentos de um percurso</strong> – Relembrando o que já foi dito, o cinema novo antes do golpe via no nacional-populismo uma alternativa viável para fazer as reformas estruturais no país, ligado fielmente às outras artes e a militância sindical de esquerda. No pós-64, reforça vínculos com a tradição literária, lança filmes diretamente críticos ao regime militar, mas preocupa-se com a continuidade do ciclo do cinema moderno. Assim, aquela ilusão de proximidade do intelectual com as classes populares entra em questão e o populismo já não é mais viável. Ismail Xavier aponta a trilogia do sertão nordestino (Vidas secas, Deus e o diabo na terra do sol, Os fuzis), todos em 63/64, e cita outros (Terra em transe, A derrota, Fome de amor, etc.), que vieram depois e exemplificam as características dadas.</p>
<p>A partir de 68, o Tropicalismo (inventário irônico das regressões míticas da direita conservadora), juntamente com o AI-5 (que inicia o período mais repressivo da ditadura), entram em destaque. Os extremismos se destacam, o cinema brasileiro perde a inocência e reincorpora a chanchada, diz o autor. “A nova geração não reivindica possuir um mandato popular, não supõe a ‘comunidade imaginária’ da nação de que seria porta voz”.</p>
<p>Agora que o Cinema Marginal “entra em vigor”, ainda sendo o período mais radical, o outro pólo cinematográfico fez obras que são exemplos notáveis (segundo Xavier – e concordo), de linguagem moderna: Os inconfidentes, São Bernardo e Toda nudez será castigada. Todos de 72. Na ultima fase (74-79, esticada no texto até 84), o cinema moderno brasileiro entra no período de abertura política. Ele revigora o estilo original e parte da discussão de pólos (Embrafilmes x salão dos recusados) para os problemas contemporâneos do Brasil. Em 84, “o ano do filme-síntese Cabra marcado para morrer”, filme que faz uma síntese de todo debato feito até agora – preciso assisti-lo.</p>
<p>Depois deste ano, o cinema moderno perde sua força até o calapso de 89/90, onde uma “nova ordem do audiovisual” se inicia.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>A constelação moderna e os outros dados do repertório</strong> (nota adicional)</p>
<p>“Se até os anos 60 não parecia insensato pensar em um projeto de cultura popular urbana com os cineastas na ponta, hoje se sabe dos limites de tal projeto, cujos méritos estéticos não se confundem com o que, enfim, permite viabilizar uma produção cinematográfica estável dentro de um sistema de cultura urbana de grande audiência, se é isto o que se quer. (&#8230;) Se a constelação moderna encontrou seu ponto de esgotamento, cabe observá-la como um dado, entre outros, de repertório, sem a ilusória busca de fórmulas a repetir”.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cinemacomquementende.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cinemacomquementende.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cinemacomquementende.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cinemacomquementende.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cinemacomquementende.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cinemacomquementende.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cinemacomquementende.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cinemacomquementende.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cinemacomquementende.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cinemacomquementende.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cinemacomquementende.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cinemacomquementende.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cinemacomquementende.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cinemacomquementende.wordpress.com/128/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cinemacomquementende.wordpress.com&amp;blog=8938355&amp;post=128&amp;subd=cinemacomquementende&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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